Quando assumiu a presidência da Câmara dos Deputados em fevereiro de 2025, Hugo Motta vendeu a imagem de renovação política moderada, diálogo institucional e equilíbrio entre os Poderes. Pouco mais de um ano depois, no entanto, sua gestão se tornou alvo de uma avalanche de denúncias, investigações preliminares, representações em órgãos de controle e suspeitas envolvendo o uso da estrutura pública para proteção de interesses políticos e econômicos.
De supostos esquemas de rachadinha em gabinete à contratação de funcionárias fantasmas, passando por viagens internacionais sob investigação e acusações de blindagem ao setor das apostas online e ao Banco Master, Hugo Motta passou a ocupar o centro de uma crise política que avança simultaneamente em diferentes frentes institucionais.
O volume de episódios envolvendo o presidente da Câmara já mobiliza investigações da Polícia Federal, procedimentos no Ministério Público Federal, representações no Tribunal de Contas da União e apurações no Supremo Tribunal Federal.
Uma das investigações mais delicadas envolve a chefe de gabinete de Hugo Motta, Ivanadja Velloso Meira Lima. Reportagens e procedimentos conduzidos pelo Ministério Público Federal apontam que ao menos dez assessores do gabinete teriam assinado procurações concedendo poderes amplos para que a servidora movimentasse suas contas bancárias, realizasse saques e administrasse diretamente os salários recebidos na Câmara.
Segundo as informações divulgadas, o volume financeiro movimentado ultrapassa R$ 4,1 milhões desde 2011. O caso chamou atenção porque esse tipo de prática é frequentemente associado a esquemas de “rachadinha”, quando servidores devolvem parte dos salários a terceiros ou operadores políticos.
As procurações, registradas em cartório, permitiriam acesso irrestrito às contas dos funcionários. Ivanadja já teria respondido anteriormente por ações de improbidade administrativa ligadas a situações semelhantes, segundo os relatos publicados pela imprensa. Por envolver um parlamentar com foro privilegiado, o caso foi remetido à Procuradoria-Geral da República.
Outra frente de desgaste surgiu após reportagens revelarem que assessoras lotadas no gabinete de Hugo Motta exerciam atividades incompatíveis com a função parlamentar para a qual eram remuneradas pela Câmara dos Deputados.
Os casos envolviam uma fisioterapeuta que atuava em clínicas privadas em Brasília, uma assistente social vinculada a prefeitura na Paraíba e uma estudante de medicina que acumulava outras atividades profissionais. Todas ocupavam cargos de secretária parlamentar, com jornada formal de 40 horas semanais.
Após a repercussão, duas das servidoras foram exoneradas. O Ministério Público junto ao TCU classificou o episódio como “grave descaso com a gestão dos recursos públicos” e pediu investigação formal sobre possível dano ao erário.
Embora o Tribunal de Contas da União tenha posteriormente arquivado a representação por falta de indícios considerados suficientes, o episódio aprofundou questionamentos sobre a utilização política de cargos comissionados e a fragilidade dos mecanismos de fiscalização interna da Câmara.
As denúncias também atingiram o entorno político do parlamentar. Reportagens apontaram que familiares de assessoras teriam sido nomeados ao longo dos anos no gabinete de Motta, formando núcleos familiares sustentados com recursos públicos.
Na condução da presidência da Câmara, Hugo Motta também passou a ser criticado por parlamentares da oposição e até integrantes da base governista pela maneira como conduziu projetos ligados ao setor de apostas online.
Deputados acusaram o presidente da Casa de “atropelar o regimento” e restringir debates para proteger interesses ligados às chamadas bets durante a tramitação de projetos relacionados ao combate ao crime organizado e à regulamentação do setor.
As críticas ganharam ainda mais peso após a revelação de que Motta viajou em jatinho particular pertencente ao empresário Fernando Oliveira Lima, conhecido como “Fernandin OIG”, empresário associado ao mercado de apostas online.
A viagem internacional para a ilha de São Martinho, no Caribe, hoje integra uma investigação que tramita no Supremo Tribunal Federal sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes.
Segundo informações obtidas pela Polícia Federal, bagagens vindas do exterior teriam sido retiradas de um aeroporto executivo em São Roque, no interior de São Paulo, sem passar pelos procedimentos obrigatórios de fiscalização da Receita Federal.
As imagens analisadas pelos investigadores mostram malas sendo transportadas fora do circuito regular de inspeção por raio-X. A PF apura possíveis crimes de facilitação de contrabando, descaminho e prevaricação.
Hugo Motta afirma que cumpriu todas as exigências legais e nega qualquer irregularidade.
A gestão de Hugo Motta também se tornou alvo de críticas devido à concentração de poder sobre a distribuição de emendas parlamentares.
Levantamentos sobre a execução orçamentária apontaram que um grupo reduzido de deputados ligados à cúpula da Câmara concentrou o controle de aproximadamente R$ 1,5 bilhão em emendas de comissão, fortalecendo alianças políticas e redutos eleitorais.
Nos bastidores, parlamentares acusam a presidência da Câmara de utilizar a liberação de verbas como instrumento de fidelização política, ampliando um modelo já criticado durante o auge do chamado orçamento secreto.
O episódio mais recente envolve as investigações sobre o Banco Master. Com o avanço das apurações da Polícia Federal e a pressão por abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, Hugo Motta passou a ser acusado de atuar para retardar o andamento do pedido.
Publicamente, o presidente da Câmara afirmou que respeitará a ordem cronológica dos requerimentos de CPI. Na prática, porém, a decisão empurra a análise do caso para depois de outros 15 pedidos já protocolados.
A manobra foi interpretada por parlamentares e analistas políticos como uma tentativa de esfriar o avanço da investigação dentro da Câmara.
As críticas aumentaram após declarações do senador Renan Calheiros, que associou Hugo Motta a medidas que poderiam beneficiar interesses ligados ao Banco Master e citou operações financeiras envolvendo familiares do presidente da Câmara.
As denúncias que cercam Hugo Motta são, por si só, extremamente graves. Suspeitas de rachadinha, uso de funcionários fantasmas, favorecimento político, concentração de emendas e possíveis relações impróprias com setores econômicos já seriam suficientes para colocar qualquer liderança do Congresso sob intensa pressão institucional.
Mas, nos bastidores de Brasília, o movimento que mais chama atenção hoje é justamente a tentativa de conter o avanço da CPI do Banco Master.
A insistência de Hugo Motta em esfriar a comissão, empurrando sua instalação por meio de manobras regimentais e da chamada “fila cronológica” de requerimentos, acabou produzindo um efeito político contrário ao esperado: ampliou a percepção de que o conteúdo potencial da investigação pode atingir o núcleo de sustentação de sua presidência na Câmara.
Parlamentares de diferentes correntes passaram a interpretar a resistência à CPI como um sinal de alerta. A avaliação nos corredores do Congresso é de que, caso a comissão avance sem controle político, os desdobramentos podem se tornar devastadores para a imagem e para a sobrevivência política do presidente da Câmara.
O temor não se limita apenas ao Banco Master. Existe a percepção crescente de que uma investigação aprofundada poderia conectar episódios que hoje aparecem de forma isolada — relações com grupos econômicos, atuação legislativa controversa, operações financeiras envolvendo pessoas próximas e decisões políticas tomadas nos bastidores da Câmara.
Sem condenações até o momento, Hugo Motta segue protegido pelo peso institucional do cargo e pelo apoio de setores importantes do Centrão. Ainda assim, o acúmulo de suspeitas começa a corroer um dos ativos mais importantes para qualquer liderança em Brasília: a capacidade de manter controle político absoluto sobre a própria narrativa.
E, no Congresso, quando um presidente da Câmara começa a perder o controle da narrativa, normalmente é porque o poder já começou a escorrer pelos corredores.