Os Estados Unidos anunciaram nesta quinta-feira (28) que irão classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês). A medida passa a valer a partir de 5 de junho e representa uma escalada na estratégia do governo do presidente Donald Trump contra organizações ligadas ao narcotráfico internacional.
O anúncio foi feito pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que também informou a inclusão imediata das duas facções na lista de Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs), mecanismo que amplia o alcance de sanções financeiras e restrições internacionais.
Pelas redes sociais, Rubio afirmou que PCC e CV estão entre “as organizações criminosas mais violentas do Brasil” e que sua atuação ultrapassa as fronteiras brasileiras.
“Sua influência se estende por toda a nossa região e chega ao nosso país”, escreveu o secretário de Estado.
A decisão ocorre dias após uma visita do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos Estados Unidos. Pré-candidato à Presidência da República, o parlamentar se reuniu com Rubio e afirmou ter tratado do tema durante cerca de 30 minutos. Na quarta-feira (27), ele já havia antecipado a jornalistas que o secretário demonstrava apoio à classificação das facções como organizações terroristas.
Após a confirmação da medida, Flávio comemorou nas redes sociais. Em uma publicação curta, escreveu apenas: “Grande dia”.
A classificação como organização terrorista estrangeira permite ao governo americano ampliar sanções econômicas, bloquear ativos ligados aos grupos e aumentar mecanismos de cooperação internacional para rastreamento financeiro e combate à lavagem de dinheiro. Especialistas apontam que a medida também pode afetar empresas, instituições financeiras e indivíduos que mantenham relações comerciais com integrantes das organizações, mesmo de forma indireta.
O tema vinha gerando preocupação dentro do governo brasileiro. Integrantes do Palácio do Planalto e da diplomacia brasileira resistiam à classificação por receio de que ela pudesse abrir espaço para pressões internacionais, sanções econômicas ou interpretações que afetassem a soberania nacional.
Em reação ao anúncio, o assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, afirmou que a cooperação internacional contra crimes transnacionais é bem-vinda, mas ressaltou que qualquer iniciativa que sirva de justificativa para intervenções externas é considerada inaceitável pelo governo brasileiro.
A decisão dos Estados Unidos ocorre em um momento de forte polarização política no Brasil e tende a transformar o combate ao crime organizado em um dos principais temas da corrida presidencial de 2026.
Enquanto aliados de Flávio Bolsonaro apresentam a medida como uma vitória diplomática e um reconhecimento internacional da gravidade das facções brasileiras, integrantes do governo Lula avaliam que o movimento possui forte componente político e pode gerar tensões nas relações entre Brasília e Washington.
Com presença consolidada em diversos estados brasileiros e atuação internacional em rotas de tráfico, PCC e Comando Vermelho são apontados por autoridades de segurança como as maiores organizações criminosas da América do Sul. A classificação norte-americana reforça a pressão internacional sobre os grupos, mas também abre uma nova frente de debate sobre soberania, cooperação internacional e os limites da atuação dos Estados Unidos na região.