Paraíba, sexta, 26 de junho de 2026

Marinho critica o Itamaraty, mas esquece o aparelhamento no governo BolsonaroBrasil

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Ao acusar Lula de usar a diplomacia politicamente, senador ignora episódios envolvendo PF, PRF, Abin e ataques sem provas às urnas durante o governo Bolsonaro.

A crítica do senador Rogério Marinho ao Itamaraty pode até encontrar eco entre os aliados de Jair Bolsonaro, mas ignora uma contradição central: durante o governo Bolsonaro, órgãos de Estado também foram frequentemente acusados de servir a interesses políticos do então presidente e de seu grupo.

Marinho acusa Lula de transformar a diplomacia brasileira em um “puxadinho ideológico do PT”. O problema é que o bolsonarismo não tem muita autoridade para fazer esse tipo de cobrança sem olhar para o próprio passado recente. Foi no governo Bolsonaro que a Polícia Federal viveu sucessivas crises envolvendo suspeitas de interferência política. Foi também sob sua gestão que a Polícia Rodoviária Federal entrou no centro da polêmica no segundo turno das eleições de 2022, após operações que levantaram suspeitas de dificultar o deslocamento de eleitores, especialmente no Nordeste. O TSE chegou a determinar a suspensão de operações que pudessem comprometer o transporte de eleitores.

Há ainda o caso da chamada “Abin paralela”, investigação que apura o uso ilegal da estrutura da Agência Brasileira de Inteligência para monitorar autoridades, adversários e produzir ataques políticos. A Polícia Federal apontou a existência de uma organização voltada ao monitoramento ilegal usando sistemas da agência, caso que atingiu nomes ligados diretamente ao bolsonarismo.

Mas talvez o episódio mais simbólico tenha sido a reunião de Jair Bolsonaro com embaixadores, em julho de 2022, no Palácio da Alvorada. Diante de representantes diplomáticos estrangeiros, o então presidente colocou em dúvida a segurança das urnas eletrônicas brasileiras sem apresentar provas de fraude. O encontro se tornou um dos marcos da ofensiva contra o sistema eleitoral e contribuiu para a condenação de Bolsonaro por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação.

Por isso, quando Rogério Marinho acusa o governo Lula de aparelhar o Itamaraty, sua crítica esbarra na memória recente do país. É legítimo discutir se a nota do Ministério das Relações Exteriores usou tom adequado ou se exagerou na linguagem política. Mas é seletivo denunciar aparelhamento apenas quando ele atinge adversários, enquanto se relativiza o uso político de instituições durante o governo Bolsonaro.

O debate, portanto, não deveria ser sobre quem grita mais alto em nome da pátria. Deveria ser sobre coerência. Quem cobra neutralidade institucional hoje precisa explicar por que se calou, minimizou ou defendeu episódios em que órgãos de Estado foram usados para proteger interesses políticos do próprio campo.