No interior da Paraíba, as ruínas de uma antiga propriedade rural preservam a memória de uma das práticas mais cruéis da escravidão brasileira: a exploração reprodutiva de mulheres negras para alimentar o comércio de pessoas. Na Fazenda Tanques, no município de Remígio, a maternidade não representava necessariamente a possibilidade de construir uma família. Para muitas mulheres escravizadas, dar à luz significava enfrentar a separação dos próprios filhos, destinados ao trabalho forçado ou à comercialização.
Conhecida historicamente como Fazenda Maternidade, a propriedade pertenceu ao comerciante português Francisco Jorge Torres, também chamado de Jorge Marinheiro, que acumulou riqueza durante o século XIX com atividades econômicas que incluíam o comércio de pessoas escravizadas.
Segundo relatos históricos e pesquisas sobre a propriedade, mulheres negras eram submetidas a um sistema de reprodução controlado pelos senhores. Homens escravizados eram selecionados para engravidá-las e, próximo ao parto, elas eram encaminhadas à fazenda, onde outras mulheres escravizadas auxiliavam no nascimento das crianças.
Depois de um curto período de convivência com os recém-nascidos, as mães eram separadas dos filhos e enviadas novamente às senzalas. As crianças permaneciam sob os cuidados de outras mulheres até serem destinadas ao trabalho ou à venda.
O sistema transformava a capacidade reprodutiva feminina em fonte de enriquecimento dos proprietários, retirando das mulheres escravizadas até mesmo o direito de criar os próprios filhos.
A Fazenda Tanques foi estabelecida no século XIX, quando Remígio ainda integrava o território de Areia, um dos centros econômicos do Brejo paraibano.
O complexo reunia atividades de pecuária, agricultura e beneficiamento de couro. Entretanto, o que torna sua história particularmente marcante é a utilização de parte da propriedade como espaço de nascimento e criação de crianças escravizadas.
As estruturas remanescentes incluem uma construção de pedra, com paredes espessas, poucas aberturas e características associadas ao controle das pessoas mantidas naquele ambiente.
Pesquisas e relatos transmitidos por gerações de moradores identificam o espaço como a antiga maternidade das mulheres escravizadas.
O historiador Raimundo Melo, em reportagem exibida pela televisão paraibana, descreveu um sistema em que mulheres eram obrigadas a engravidar e tinham os filhos separados de si para alimentar o comércio de escravizados.
As investigações históricas apontam que Francisco Jorge Torres comercializou pelo menos uma centena de pessoas escravizadas. Esse número, contudo, não constitui um registro completo de todos os nascimentos ou das separações familiares ocorridas na propriedade.
A exploração não se limitava à Fazenda Tanques. Em Areia, Francisco Jorge Torres também possuía um casarão que abrigava uma senzala urbana, utilizada para manter pessoas escravizadas.
O imóvel, atualmente conhecido como Casarão José Rufino, integra o patrimônio histórico da cidade e ajuda a compreender a dimensão econômica da escravidão na região.
Durante o século XIX, Areia se consolidou como importante centro comercial do Brejo paraibano. A produção agrícola, especialmente ligada à cana-de-açúcar, dependia intensamente do trabalho escravizado.
O historiador Horácio de Almeida estimou que, em 1840, o município possuía mais de quatro mil pessoas escravizadas em uma população de aproximadamente 32 mil habitantes.
Nesse contexto, a reprodução forçada representava uma forma de ampliar a população submetida ao cativeiro e, consequentemente, o patrimônio dos proprietários.
A história da Fazenda Maternidade revela uma dimensão da escravidão frequentemente menos abordada do que o trabalho nas lavouras: o controle da sexualidade e da reprodução das mulheres escravizadas.
A violência não se restringia à exploração física. Envolvia a imposição de relações sexuais, a negação da autonomia sobre o próprio corpo e a destruição dos vínculos familiares.
No sistema escravista brasileiro, crianças nascidas de mulheres escravizadas também eram consideradas propriedade dos senhores, situação modificada juridicamente pela Lei do Ventre Livre, de 1871, embora a legislação mantivesse mecanismos de exploração do trabalho dessas crianças.
A reprodução de pessoas escravizadas como estratégia econômica também foi identificada em outras regiões do país.
O escritor e pesquisador Laurentino Gomes, autor de uma trilogia sobre a escravidão brasileira, aponta a existência de propriedades com essa finalidade na Paraíba e no Rio de Janeiro. A escassez de registros documentais, entretanto, dificulta determinar a extensão dessas práticas.
Passados mais de 130 anos da abolição formal da escravidão, a Fazenda Tanques permanece como testemunho material de um período em que pessoas eram legalmente transformadas em propriedade.
Localizada a aproximadamente seis quilômetros do centro de Remígio, às margens da BR-104, a propriedade passou a receber visitantes interessados em conhecer sua história e as estruturas remanescentes do antigo complexo rural.
O local também suscita uma reflexão sobre a maneira como o patrimônio ligado à escravidão é apresentado às novas gerações. Mais do que construções antigas ou atrações turísticas, as ruínas representam experiências humanas marcadas pela violência, pela separação familiar e pela negação de direitos fundamentais.
A história da Fazenda Maternidade precisa ser preservada não apenas como registro da economia escravista paraibana, mas também como parte da memória das mulheres negras cujos nomes, histórias e descendências muitas vezes desapareceram dos documentos oficiais.
Por trás de cada criança negociada havia uma mãe impedida de exercer plenamente a maternidade. Por trás de cada negociação, um sistema econômico sustentado pela desumanização de pessoas.
A Fazenda Tanques não é apenas uma lembrança do passado da Paraíba. É um lugar de memória que exige que a história da escravidão seja conhecida, estudada e jamais romantizada.