Embora tenha sido arquivada pela Polícia Civil do Distrito Federal a ocorrência envolvendo o ex-governador e deputado federal eleito Ricardo Coutinho, do PT da Paraíba, por inexistência de provas de infração penal, o incidente deixou um rastro de “armação”, partida não se sabe de onde e que ainda precisa ser elucidada para que a história seja passada a limpo.
Afinal, a repercussão foi grande, tanto na mídia nacional como na mídia paraibana, excitada pelo sensacionalismo dos relatos de uma suposta abordagem do ex-governador a crianças nas proximidades da Vila Olímpica de Santa Maria, no Distrito Federal.
O currículo de Ricardo colaborava para o enredo: um líder popular, de posições políticas polêmicas, que desafiou elites no Estado e que caiu em desgraça ao ser arrolado no bojo de uma Operação Calvário versando sobre desvio de recursos públicos da administração estadual, processo desgastante que lhe custou algumas derrotas na carreira.
Ainda por cima, amigo pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito pela quarta vez ao Planalto.
O despacho do delegado Alexandre Traback Amorim de Oliveira foi categórico ao concluir que não há confirmação segura de que o político tenha praticado qualquer ato de abordagem com finalidade sexual, libidinosa, de aliciamento ou de outra natureza criminosa.
Até ser extraído esse diagnóstico, Coutinho viveu um verdadeiro inferno astral, comum a figuras públicas nesses tempos de domínio das redes sociais, tornando-se alvo dos tribunais da internet, com opiniões contra ou a favor, por mais disparatadas que fossem.
O ex-governador chegou em falar em “armação” do “andar de cima”, sem explicitar quem está nesse andar dos edifícios dos Poderes no Distrito Federal. Os adversários esfregaram as mãos de contentamento ao serem informados de que ele foi chamado a prestar esclarecimentos em delegacia de Brasília, o que é da praxe investigatória.
O próprio Ricardo não há de ter ficado satisfeito com o desfecho do caso rumoroso que ganhou as manchetes – afinal, a Inquisição já estava pairando sobre sua cabeça, no momento da sua pré-estreia como deputado federal e em meio a expectativas promissoras sobre sua “reentrée” na atuação política como deputado de confiança do presidente da República e com um perfil que favorece embates históricos no plenário da Câmara Federal.
Falta esclarecer quem esteve por trás da orquestração para incriminar Coutinho num episódio abjeto, imoral e enredá-lo de tal sorte que foi parar em uma delegacia.
Numa manifestação nas redes sociais, o ex-governador afirmou que havia solicitado as imagens do local em que havia crianças para esclarecer o incidente de uma vez por todas, de modo a não restarem dúvidas sobre inexistência de comportamento impróprio da sua parte.
O ex-governador da Paraíba, que foi derrotado ao Senado em 2022 na chapa de Veneziano Vital do Rêgo (MDB) e como candidato a prefeito de João Pessoa em 2020, depois de ter sido prefeito por duas vezes e se credenciado a eleger-se governador também em duas oportunidades, buscou a reabilitação política-eleitoral por meio de uma vaga na Câmara dos Deputados e apresentou-se ao eleitorado como integrante do “exército de Lula” para ajudar a fazer frente ao fascismo e dar combate ostensivo ao bolsonarismo, com quem tem divergências lapidares.
Forjado em lutas sindicais e movimentos populares, notoriamente vinculado ao campo da esquerda, Ricardo Coutinho tornou-se um fenômeno na conjuntura política local por ser pródigo em atitudes controversas e independentes dentro do próprio PT.
Chegou a deixar a legenda porque esta lhe negou vaga para ser candidato a prefeito da Capital em 2004, e passou a comandar o PSB, onde se elegeu tanto à prefeitura como ao Executivo estadual. Fez o caminho de volta ao PT com o aval de líderes nacionais.
Capaz de gestos corajosos como o de oferecer espaço público na Paraíba para a presidente Dilma Rousseff defender-se das acusações que visavam a provocar o seu impeachment, o que de fato aconteceu, ou o de visitar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando este se encontrava preso na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, Paraná, Ricardo Coutinho criou uma grife política personalista na cena paraibana.
Na esteira da sua reabilitação política, elegendo-se deputado federal com votação expressiva, o que sacrificou a reeleição do deputado Luiz Couto, Ricardo passou a ser cogitado para assumir cargos de liderança nacional dentro do PT ou até mesmo um ministério no novo governo de Lula, embora dissesse que a sua intenção é a de fazer jus ao mandato que pleiteou nas urnas.
Com o surgimento desse quiproquó em Brasília, Ricardo terá que se desdobrar para compensar-se na Câmara com uma atuação realmente proativa, enterrando o estigma de uma página que quase virou martírio na sua carreira prestes a ser retomada.