O “mensalinho oficial” de Marcelo Queiroga no PL

COMPARTILHAR

Mesmo dentro da lei, salário de R$ 30 mil bancado com dinheiro público levanta questionamentos éticos sobre locupletação política

Ex-ministro da Saúde do governo Jair Bolsonaro, o cardiologista Marcelo Queiroga passou a integrar oficialmente a folha de pagamentos do diretório nacional do Partido Liberal (PL) desde fevereiro de 2025. O salário bruto mensal é de R$ 30 mil, pagos com recursos públicos do fundo partidário — dinheiro abastecido majoritariamente por impostos.

Após descontos, Queiroga recebe cerca de R$ 22 mil líquidos por mês, conforme informado pelo próprio partido à Justiça Eleitoral. No papel, o ex-ministro ocupa o cargo de “assessor especial”, enquanto, politicamente, exerce a função de presidente estadual do PL na Paraíba, seu principal reduto eleitoral. Em paralelo, já se movimenta como pré-candidato ao Senado em 2026.

Legal, mas é moral?

Do ponto de vista jurídico, o pagamento não infringe a legislação eleitoral: partidos podem remunerar assessores com recursos do fundo partidário. O ponto central, porém, está longe de ser apenas legal. A questão é ética.

Na prática, trata-se de um salário público mensal garantido a um ex-ministro, dirigente partidário e pré-candidato, em um arranjo que se assemelha a um “mensalinho oficializado”, chancelado por normas, mas sustentado pelo contribuinte.

O próprio Queiroga admite que a função de dirigente partidário não é remunerada, mas afirma que o salário se refere ao apoio que presta ao PL “na agenda da Saúde”. A explicação, embora formalmente correta, não dissipa o desconforto público: qual é o limite entre assessoria técnica e financiamento indireto de um projeto eleitoral pessoal?

Fundo público, benefício privado

O fundo partidário existe para fortalecer a democracia, garantir pluralidade política e financiar atividades institucionais dos partidos — não para assegurar rendas elevadas a figuras já consolidadas no poder, especialmente quando estas se colocam como candidatos em eleições futuras.

Mesmo sem ilegalidade, o caso expõe um modelo recorrente na política brasileira: o uso de estruturas partidárias e recursos públicos para manutenção de projetos individuais de poder, blindados pela formalidade dos contratos.

Em tempos de cobrança por austeridade, transparência e responsabilidade com o dinheiro público, o “mensalinho” de Marcelo Queiroga reacende uma pergunta incômoda — e inevitável:

Tudo que é legal deve ser automaticamente considerado aceitável?

COMPARTILHAR

Leia tambem: