Paraíba, quarta, 19 de agosto de 2026

Brasil se despede de duas gigantes: Laura Cardoso e Glória Menezes morrem e deixam legado na dramaturgia

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Em um intervalo de poucas horas, dramaturgia brasileira perde duas de suas maiores referências; atrizes atravessaram gerações e ajudaram a escrever a história da televisão, do teatro e do cinema no país.

A dramaturgia brasileira vive um dia de despedidas. Duas das maiores atrizes da história do país, Laura Cardoso, aos 98 anos, e Glória Menezes, aos 91, tiveram suas mortes anunciadas nesta terça-feira (18). Com carreiras que atravessaram décadas, as duas ajudaram a construir a história da televisão brasileira e também deixaram suas marcas no teatro e no cinema.

Laura morreu em casa, em São Paulo, na noite de segunda-feira (17). A notícia foi divulgada pela família durante a madrugada desta terça. Glória Menezes morreu nesta terça-feira, em sua residência, no Rio de Janeiro.

Mais do que duas atrizes populares, Laura e Glória fizeram parte da própria formação da dramaturgia televisiva nacional. Ambas começaram a trabalhar quando a televisão ainda dava seus primeiros passos no Brasil e acompanharam as transformações técnicas, estéticas e culturais do veículo até a era das grandes produções.

Laura Cardoso: mais de oito décadas dedicadas à interpretação

Nascida Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni, em São Paulo, Laura Cardoso começou a carreira no rádio, em 1942. Uma década depois, em 1952, estreou na televisão no programa Tribunal do Coração, da TV Tupi, tornando-se uma das pioneiras do novo meio de comunicação que começava a conquistar os brasileiros.

Sua trajetória passou por emissoras como Tupi, Record, Bandeirantes e Globo. Nesta última, estreou em 1981, na novela Brilhante, de Gilberto Braga. A partir daí, consolidou uma impressionante sequência de personagens, muitas vezes mulheres fortes, matriarcas, mães e avós que ganhavam dimensão muito maior nas mãos da atriz.

Entre seus trabalhos mais lembrados está Isaura Araújo, de Mulheres de Areia (1993). Na novela, Laura interpretava a mãe das gêmeas Ruth e Raquel, vividas por Gloria Pires. Isaura era uma mulher simples, casada com o pescador Floriano, e carregava uma relação especialmente conturbada com a filha Raquel.

Logo depois veio outra personagem marcante: Guiomar, em A Viagem (1994). Mãe de Andrezza e sogra de Raul, a personagem sofre a influência do espírito de Alexandre e passa a agir de maneira inexplicavelmente hostil contra o genro. O papel deu a Laura algumas das cenas mais intensas da novela.

Em 1995, ela viveu Sinhana, a mãe da família Coragem, na segunda versão de Irmãos Coragem. A própria atriz considerava o papel um dos mais emocionantes de sua trajetória. Depois vieram personagens como Soraya, de Explode Coração, Ruth, de Salsa e Merengue, e Deolinda, de Vila Madalena.

Uma nova geração de telespectadores conheceu Laura Cardoso como a inesquecível Vó Carmem, de Chocolate com Pimenta (2003). Avó de Ana Francisca, personagem de Mariana Ximenes, Carmem era uma mulher simples, espontânea e afetuosa, que preferia a vida no sítio ao luxo conquistado pela neta.

Laura ainda se destacou como Laksmi, em Caminho das Índias (2009), e Dona Sinhá, de Sol Nascente (2016), além de participar de O Outro Lado do Paraíso. Sua última novela foi A Dona do Pedaço, em 2019, quando interpretou Matilde, uma idosa com Alzheimer cujas lembranças tinham importância para um dos mistérios da trama.

Mesmo depois de se afastar das novelas, Laura continuou trabalhando. Em 2025, aos 97 anos, protagonizou o curta-metragem Dona Rosinha e participou da tradicional vinheta de fim de ano da Globo.

Glória Menezes: da pioneira da televisão à inesquecível Laurinha Figueroa

Nascida Nilcedes Soares de Magalhães, em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 19 de outubro de 1934, Glória Menezes construiu uma carreira de mais de seis décadas e se tornou uma das principais protagonistas da história da televisão brasileira.

Sua trajetória profissional começou no final dos anos 1950. No teatro, recebeu reconhecimento já em seus primeiros trabalhos. Na televisão, participou de Um Lugar ao Sol, na TV Tupi, e esteve nos primeiros anos da telenovela brasileira. Também participou de 2-5499 Ocupado, produção histórica protagonizada ao lado de Tarcísio Meira.

No cinema, Glória participou de um dos filmes mais importantes da história brasileira: O Pagador de Promessas, dirigido por Anselmo Duarte. O longa conquistou a Palma de Ouro do Festival de Cannes, feito até hoje único para um longa-metragem brasileiro.

Na Globo, sua estreia aconteceu em 1967, como Doña Sol, protagonista de Sangue e Areia. Ao longo das décadas seguintes, Glória participaria de mais de 40 telenovelas da emissora, transformando-se em um dos rostos mais conhecidos da televisão nacional.

Entre os grandes sucessos está Irmãos Coragem, de Janete Clair, exibida originalmente entre 1970 e 1971. A novela se tornou um dos marcos da teledramaturgia brasileira e reuniu novamente Glória e Tarcísio Meira, casal que construiu uma das mais famosas parcerias artísticas e afetivas do país.

Décadas depois, Glória mostraria outra face de seu talento ao interpretar Laurinha Figueroa, em Rainha da Sucata (1990). Elegante, perturbadora e obsessiva, Laurinha entrou para a galeria das vilãs mais marcantes das novelas brasileiras.

Glória também esteve em produções como Guerra dos Sexos, Torre de Babel, Senhora do Destino e A Favorita, alternando personagens dramáticas e cômicas e mostrando uma versatilidade que ajudou a manter sua carreira relevante para diferentes gerações de telespectadores.

Em 1988, ela e Tarcísio ganharam ainda um programa próprio, Tarcísio & Glória, série que explorava justamente a enorme popularidade da dupla. Casados por 59 anos, os dois formaram uma das uniões mais conhecidas do meio artístico brasileiro, encerrada com a morte de Tarcísio, em 2021.

Um de seus últimos grandes trabalhos na televisão foi Totalmente Demais (2015-2016), novela que apresentou Glória a mais uma geração de telespectadores.

Duas trajetórias que se confundem com a história da TV

As histórias de Laura Cardoso e Glória Menezes ajudam a contar também a história da televisão brasileira. As duas começaram quando atuar diante das câmeras significava trabalhar praticamente ao vivo, atravessaram a consolidação das telenovelas, acompanharam a chegada da televisão em cores e permaneceram relevantes quando as produções brasileiras passaram a alcançar milhões de espectadores dentro e fora do país.

Laura se tornou símbolo da força dos personagens populares, das mães, avós e matriarcas que pareciam carregar uma vida inteira no olhar. Glória transitou das grandes protagonistas às vilãs e personagens sofisticadas, sem perder a capacidade de se reinventar.

Em poucas horas, o Brasil perdeu duas atrizes. A dramaturgia, porém, perdeu muito mais: duas testemunhas e protagonistas de sua própria história.

Laura Cardoso e Glória Menezes deixam personagens, cenas e interpretações preservadas na memória de diferentes gerações — um legado construído quando a televisão brasileira ainda aprendia a contar histórias e que permanece mesmo depois que as duas gigantes deixaram a cena.