O Ministério Público da Paraíba (MPPB) levou à Justiça uma nova frente do caso que investiga a suposta infiltração de uma organização criminosa na estrutura política e administrativa de Cabedelo. Em ação por improbidade administrativa, o órgão acusa os ex-prefeitos Vitor Hugo Peixoto Castelliano e André Luís Almeida Coutinho e outras três pessoas de participação em um esquema que teria usado contratações na Prefeitura para beneficiar indicados do grupo criminoso e desviar dinheiro público. O prejuízo calculado pelo MPPB é de, pelo menos, R$ 519.202,54, ainda sem atualização.
Também são alvos da ação Flávio de Lima Monteiro, conhecido como Fatoka, Flávia Santos Lima Monteiro e Marcela Pereira da Silva. O processo foi ajuizado pelo 4º promotor de Justiça de Cabedelo, Ronaldo Guerra. As acusações ainda dependem de análise da Justiça e, portanto, não representam condenação dos envolvidos.
A acusação tem como base elementos obtidos nas duas fases da Operação En Passant, deflagrada pela Polícia Federal com participação do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco), em 2024. As investigações apuraram a influência de uma organização criminosa sobre o processo eleitoral de Cabedelo e a utilização da estrutura pública municipal para contratar pessoas indicadas pelo grupo.
Segundo a ação, teria existido uma aliança entre gestores municipais e Fatoka, apontado pelas investigações como liderança do tráfico local. O MPPB sustenta que ele indicava nomes para contratação pelo poder público e, em contrapartida, ofereceria “apoio” e “proteção política” em comunidades sob influência do grupo.
A acusação afirma ainda que o domínio exercido nessas localidades seria utilizado para influenciar moradores em diferentes aspectos da vida cotidiana, inclusive na escolha de candidatos durante as eleições.
As investigações também identificaram, segundo o Ministério Público, um mecanismo de desvio do dinheiro pago aos contratados. Parte das pessoas admitidas precisaria repassar uma parcela dos valores recebidos a terceiros, no esquema conhecido como “rachadinha”.
Na avaliação do promotor responsável pela ação, os recursos desviados teriam origem em pagamentos a ocupantes de cargos comissionados, trabalhadores terceirizados e pessoas contratadas temporariamente por excepcional interesse público.
Em relação a Vitor Hugo, o MPPB sustenta que, enquanto prefeito, ele teria usado a estrutura administrativa municipal para autorizar e avalizar nomeações de pessoas indicadas pela organização criminosa.
André Coutinho, que foi vereador e posteriormente assumiu a Prefeitura de Cabedelo, também é apontado na ação como participante das autorizações e nomeações. Conforme a acusação, as indicações teriam ocorrido tanto na Câmara Municipal quanto na Prefeitura, e elementos da investigação indicariam que ele tinha conhecimento das contratações e teria participado do esquema de desvio.
Em manifestações públicas durante fases anteriores da Operação En Passant, Vitor Hugo e André Coutinho negaram envolvimento em atos ilícitos e afirmaram estar à disposição das autoridades para colaborar com as investigações.
Outro ponto da investigação envolve a Lemon Terceirização e Serviços Ltda., apontada como um dos caminhos utilizados para inserir pessoas indicadas pelo grupo criminoso na administração municipal.
De acordo com levantamento citado pelo MPPB, em março de 2024 a empresa possuía 126 funcionários vinculados ao município, com folha de pagamento de R$ 153.226,68, custeada com recursos do Fundo Municipal de Saúde.
A ação atribui a Flávia Monteiro a função de elo entre a empresa, a Prefeitura e integrantes do grupo criminoso. Em uma busca realizada na residência dela, conforme o Ministério Público, foram apreendidos documentos relacionados à Lemon, incluindo informações sobre procedimentos de admissão, nomes, contatos e cópias de documentos pessoais.
Marcela Pereira da Silva também é apontada como responsável, ao lado de Flávia, pela operacionalização de indicações e nomeações e pela viabilização do repasse de parte do dinheiro recebido pelos contratados.
Na ação, Fatoka é apontado como responsável por articular o apoio político da organização criminosa e indicar familiares e pessoas ligadas ao grupo para ocupar postos na administração pública, diretamente ou por intermédio da terceirizada.
Segundo o MPPB, a atuação investigada envolveria controle territorial de comunidades, coação de eleitores, corrupção eleitoral e interferência nas nomeações para cargos públicos.
Para o Ministério Público, portanto, as contratações teriam duas finalidades: fortalecer uma relação de apoio político e permitir o desvio de parte dos recursos públicos destinados aos salários.
O MPPB pede que os cinco demandados sejam condenados por atos de improbidade administrativa. Entre as sanções requeridas estão perda de bens ou valores obtidos ilicitamente, quando cabível; perda da função pública; suspensão dos direitos políticos por até 12 anos; multa civil equivalente ao dano; e proibição de contratar com o poder público ou receber benefícios ou incentivos fiscais e creditícios por até 12 anos.
O Ministério Público também apresentou pedido liminar para que os demandados que atualmente ocupam funções públicas sejam afastados dos cargos enquanto o processo tramita.