Paraíba, sexta, 17 de julho de 2026

Vítima relata assédio atribuído a diácono afastado pela Igreja e demitido da UFCG: “Tinha fixação em falar sobre sexo”

Compartilhe:

Mulher afirma que comportamento ocorreu em 2017; professor foi demitido pelo MEC após processo administrativo e Diocese de Campina Grande suspendeu o religioso enquanto apura o caso.

O afastamento do diácono Antônio Lisboa Leitão de Souza das atividades religiosas pela Diocese de Campina Grande, anunciado após sua demissão da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) por decisão do Ministério da Educação (MEC), reacendeu relatos de mulheres que afirmam ter sido vítimas de assédio sexual praticado por ele. Uma dessas vítimas, que pediu para não ter a identidade revelada por questões de segurança, descreveu episódios ocorridos em 2017 e disse esperar que as medidas adotadas pelas instituições representem um passo para que o caso tenha responsabilização.

Segundo a mulher, o então professor fazia comentários frequentes de cunho sexual dirigidos às estudantes e mantinha um comportamento considerado constrangedor durante o convívio acadêmico.

“Ele ficava insinuando coisas, dizia que as meninas estavam com a roupa muito apertada e que isso fazia mal para as partes íntimas. Eram várias situações, sempre com conotação sexual. Ele tinha fixação em falar sobre sexo com as mulheres”, relatou.

Após a divulgação da decisão do MEC, a Diocese de Campina Grande informou que determinou o afastamento de Antônio Lisboa de todas as atividades da Igreja e a suspensão do exercício do ministério diaconal, enquanto os fatos são apurados conforme as normas canônicas.

A vítima afirmou que recebeu a notícia da demissão e do afastamento com a expectativa de que outras providências sejam tomadas. Para ela, alguém que ocupou posições de destaque em instituições públicas e religiosas não pode servir de referência para a sociedade.

“Está com uma pessoa que não é exemplo para o mundo. Pelo menos se arrependesse do que já fez, mas não. Ele continuou fazendo e fazendo mais vítimas, pelo que a gente viu. Tantos comentários de pessoas dizendo que ele também fazia isso”, declarou.

Além da carreira como professor da UFCG, Antônio Lisboa foi ordenado diácono da Diocese de Campina Grande em 2015. Em maio de 2026, ele havia sido transferido da Paróquia Nossa Senhora do Rosário para a Paróquia Nossa Senhora das Dores e São Lucas.

Processo na Justiça

O Jornal da Paraíba teve acesso à sentença de um processo judicial em que Antônio Lisboa respondeu por assédio sexual contra duas mulheres em 2017.

Na ocasião, ele foi beneficiado com a suspensão condicional do processo, mecanismo previsto na legislação que interrompe a tramitação da ação mediante o cumprimento de condições estabelecidas pela Justiça. Conforme a sentença, ele cumpriu prestação de serviços à comunidade e compareceu periodicamente ao Judiciário até o encerramento das medidas.

Demissão pelo MEC

A demissão de Antônio Lisboa foi determinada pelo Ministério da Educação após a conclusão de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), que apontou a prática de condutas de conotação sexual e assédio moral contra alunas da Universidade Federal de Campina Grande.

A decisão foi publicada no Diário Oficial da União e assinada pelo ministro da Educação, Leonardo Osvaldo Barchini Rosa. De acordo com a portaria, o servidor utilizou o cargo que ocupava para praticar atos incompatíveis com a função pública, caracterizando o chamado “valimento do cargo”, expressão utilizada para descrever o uso da posição funcional para obtenção de vantagem ou prática de irregularidades.

Ao Jornal da Paraíba, a defesa de Antônio Lisboa afirmou ter recebido a decisão administrativa “com perplexidade”. Os advogados sustentam que pedidos apresentados durante o processo não foram analisados, alegam que o professor foi absolvido pela Justiça Criminal de Campina Grande em processo relacionado aos mesmos fatos e informaram que recorrerão ao Poder Judiciário para tentar reverter a demissão.

Nota da Diocese

Em nota, a Diocese de Campina Grande informou que tomou conhecimento da decisão do MEC e da repercussão do caso na imprensa e nas redes sociais. A instituição comunicou o afastamento de Antônio Lisboa de todas as atividades da Igreja e a suspensão do exercício do ministério diaconal, destacando que a medida segue as normas do Direito Canônico enquanto os fatos são investigados.

A Diocese também afirmou que reafirma seu compromisso com a verdade, a justiça e o cumprimento da legislação brasileira.