Paraíba, quarta, 28 de outubro de 2026

Os bolsonaristas vão me odiar mas eu preciso dizer: Não dá pra aplaudir o inaceitável

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Artigo de opinião | O problema do bolsonarismo não é ser de direita. Ele não o é. É transformar contradições morais, desprezo pela ciência e ataques às instituições em demonstrações de fidelidade política. 

Na política brasileira, há temas que provocam reações intensas, e o que vou dizer agora pode desagradar a muitos bolsonaristas: se Flávio Bolsonaro é perseguido por Alexandre de Moraes, Lula também foi perseguido por Sérgio Moro e não fugiu do Brasil.

A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, após sua derrota nas eleições presidenciais, não pode ser analisada como um episódio isolado. É mais um capítulo de uma história política marcada por acusações, disputas com as instituições e uma militância que, frequentemente, parece disposta a justificar qualquer comportamento de seus líderes.

Ontem, a Polícia Federal cancelou os passaportes do senador depois que ele deixou de cumprir a determinação judicial de entregá-los. Aliados afirmaram à imprensa que Flávio teria deixado o Brasil rumo aos Estados Unidos. A confirmação oficial das circunstâncias dessa viagem, entretanto, ainda é necessária.

Mas o que interessa aqui vai além do paradeiro de um senador. A questão é como chegamos ao ponto em que a suspeita de descumprimento de uma ordem judicial pode ser recebida por parte de uma militância não como motivo de preocupação, mas como mais uma oportunidade de defender incondicionalmente seu líder.

É preciso voltar alguns anos.

Quando ainda era deputado estadual no Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro passou a ser investigado no caso conhecido como rachadinhas. O Ministério Público apontou a suspeita de que funcionários de seu gabinete devolviam parte dos salários, em um esquema que teria Fabrício Queiroz como operador.

Flávio negou irregularidades. Posteriormente, provas importantes da investigação foram anuladas por decisões judiciais que identificaram problemas na forma como haviam sido obtidas. Mas, não por se tratarem de mentiras. A rachadinha existiu de fato.

Em abril de 2020, numa reunião ministerial que entraria para a história, Jair Bolsonaro deixou explícita sua disposição de substituir integrantes do governo para proteger familiares e pessoas próximas.

“Eu não vou esperar foder a minha família toda”, declarou.

Na mesma reunião, afirmou que, se não conseguisse trocar um subordinado, trocaria seu chefe e, se necessário, o ministro.

Dois dias depois, Sergio Moro deixaria o Ministério da Justiça, denunciando tentativas de interferência política na Polícia Federal. Bolsonaro negou as acusações.

A saída de Moro provocou uma das maiores crises do governo. Anos depois, porém, o ex-juiz voltou a se aproximar politicamente do mesmo grupo que havia acusado de tentar interferir na instituição responsável pelas investigações federais.

Essa capacidade de transformar antagonistas em aliados, denúncias em inconveniências passageiras e princípios em instrumentos descartáveis ajuda a compreender uma das características mais perturbadoras do bolsonarismo: a elasticidade de sua moral.

O bolsonarismo se apresenta como defensor de Deus, da pátria, da família e da liberdade. Mas o comportamento de seus representantes e apoiadores mais radicais nem sempre corresponde aos valores proclamados.

Que espécie de compromisso com a família é esse que relativiza a violência contra mulheres quando o acusado pertence ao grupo político de estimação?

Que patriotismo é esse que celebra medidas estrangeiras capazes de prejudicar empresas, empregos e a economia brasileira, desde que possam atingir adversários políticos?

Que defesa da liberdade é essa que considera legítimo pedir intervenção militar quando o resultado das urnas contraria seus interesses?

E que cristianismo é esse que encontra justificativas para a tortura, naturaliza a crueldade e transforma o ódio ao próximo em virtude política?

Não se trata de dizer que todo eleitor de direita compartilha dessas contradições. O Bolsonarismo  não é de direita é uma aberração ideologica.

Ser conservador, liberal ou contrário ao PT é uma posição política legítima. A democracia existe justamente para assegurar a convivência entre diferentes projetos de sociedade.

O problema começa quando o antipetismo deixa de ser uma preferência eleitoral e se transforma em autorização moral para aceitar qualquer coisa.

Foi nesse terreno que o bolsonarismo encontrou condições para crescer.

A pandemia de Covid-19 expôs essa lógica de maneira especialmente dolorosa.

Enquanto milhares de famílias enterravam seus mortos, o então presidente Jair Bolsonaro minimizava a gravidade da crise sanitária, questionava vacinas e protagonizava declarações que chocaram o país.

“E daí?” e “Eu não sou coveiro” tornaram-se expressões associadas à postura do presidente diante da tragédia.

Não eram apenas palavras. Eram manifestações de uma forma de exercer o poder que frequentemente tratava a dor alheia com indiferença.

O absurdo deixou de provocar constrangimento.

Durante os protestos antidemocráticos que se seguiram às eleições de 2022, o Brasil assistiu a cenas que pareciam desafiar qualquer explicação racional: pessoas reunidas diante de quartéis, manifestações em torno de pneus e vídeos de participantes utilizando celulares sobre a cabeça chamando extraterrestre, bebendo detergente, em rituais que se tornaram motivo de perplexidade nacional.

A bizarrice, entretanto, não estava apenas nas cenas que provocavam riso. Estava no que havia por trás delas: a disposição de abandonar o pensamento crítico em nome de uma crença política.

 

O político pode mudar de discurso, contradizer suas promessas, atacar instituições ou se envolver em investigações. Para o seguidor incondicional, a culpa será sempre de outra pessoa: da imprensa, da Justiça, dos adversários ou de uma suposta conspiração.

A realidade passa a ser aceita somente quando confirma aquilo em que se deseja acreditar.

Mas o problema político e social é maior do que um episódio individual sobre a fuga de Flavio.

Uma democracia não adoece apenas quando seus governantes desrespeitam limites. Ela também se enfraquece quando cidadãos passam a considerar esses limites dispensáveis para seus próprios líderes.

Não é uma guerra entre direita e esquerda. É o Bolsonarismo contra todos que o contestarem.

É uma disputa entre a responsabilidade e o fanatismo, entre a consciência crítica e a obediência cega, entre a capacidade de reconhecer erros e a necessidade permanente de encontrar desculpas.

Nenhum político merece devoção. Nenhuma família tem direito a privilégios diante da lei. Nenhuma ideologia deveria ser um salvo-conduto para a crueldade, a mentira ou o abuso de poder.

Por incrivel que possa parecer aos ouvidos doutrinados, eu não sou petista. Admiro pessoas mas não idolatro politicos.

O Brasil não precisa de uma sociedade que pense da mesma maneira. Precisa de uma sociedade que não tenha medo de pensar.

Porque o verdadeiro perigo começa quando a consciência deixa de orientar a política e passa a ser substituída pela fidelidade incondicional a quem exerce o poder.