Francinaldo Bandeira recuou no tom das declarações após repercussão negativa e passou a afirmar que suas restrições políticas valeriam apenas para eventos particulares.
Um dia depois de anunciar que não voltaria a contratar artistas contrários ao bolsonarismo, o presidente da Associação Pré-Carnavalesca Via Folia, Francinaldo Bandeira, amenizou o discurso e negou a existência de veto político às atrações do Carnaval de João Pessoa. A mudança de tom ocorreu nesta terça-feira (27), após a repercussão das declarações e críticas sobre o uso de preferências partidárias na organização de uma festa que recebe recursos públicos.
Na segunda-feira (26), um dia após a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro na eleição presidencial, Francinaldo havia afirmado que não pretendia mais trabalhar com artistas identificados com o petismo ou contrários ao bolsonarismo.
“Esses artistas que são anti-Bolsonaro não se preocupem, eu nunca mais contrato vocês. Eu nunca mais quero fazer nenhum trabalho com vocês”, declarou na ocasião.
A manifestação provocou questionamentos sobre a possibilidade de discriminação política na escolha das atrações do pré-carnaval da capital paraibana.
Nesta terça-feira, durante entrevista ao programa Ô Paraíba Boa, da FM 100,5, o dirigente adotou uma posição diferente. Francinaldo afirmou que não possui autoridade para impedir a contratação de artistas pelos blocos que integram a Via Folia e procurou separar suas decisões empresariais das responsabilidades exercidas à frente da associação.
“Eu sou presidente da Via Folia, não dos blocos”, justificou.
Apesar da mudança de discurso, manteve a posição de que poderá excluir artistas de seus eventos particulares conforme suas preferências.
“Eu não vou chamar quem espuma de raiva pela boca. Eu vou chamar quem eu quiser”, afirmou.
A controvérsia ganha relevância porque a Via Folia não depende exclusivamente de recursos privados.
Em janeiro de 2026, o Governo da Paraíba anunciou a destinação de R$ 1 milhão para a associação, dentro do pacote de investimentos públicos voltados ao Carnaval de João Pessoa.
O financiamento público coloca em discussão a necessidade de critérios transparentes e impessoais na utilização desses recursos, especialmente quando o dirigente da entidade manifesta publicamente a intenção de excluir profissionais por divergências políticas.
Embora empresários privados tenham liberdade para definir suas contratações dentro dos limites legais, a aplicação de dinheiro público está sujeita a regras de prestação de contas e aos princípios da administração pública.
A declaração inicial também provocou reação na Câmara Municipal de João Pessoa.
O vereador Guguinha Moov Jampa (PSD) cobrou a renúncia de Francinaldo da presidência da associação, argumentando que o dirigente não poderia utilizar suas preferências políticas como critério para decisões relacionadas a um evento apoiado pelo poder público.
O parlamentar também destacou a participação financeira da Prefeitura de João Pessoa na estrutura do pré-carnaval e defendeu que as escolhas particulares de Francinaldo não sejam confundidas com as responsabilidades da entidade.
A Via Folia reúne blocos tradicionais e participa da organização de uma das principais manifestações culturais da capital paraibana.
Até o momento, não há comprovação de que algum artista tenha sido efetivamente impedido de participar do evento por sua posição política. Entretanto, a declaração inicial do presidente e sua posterior tentativa de restringir o alcance das próprias palavras ampliaram o debate sobre a gestão dos recursos públicos destinados à festa.