Paraíba, domingo, 11 de outubro de 2026

Onde foram parar as críticas às urnas eletrônicas? O silêncio do PL após o primeiro turno das eleições de 2026

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Durante anos, as urnas eletrônicas estiveram no centro do discurso político de Jair Bolsonaro e de setores do Partido Liberal (PL). Suspeitas de fraude, cobranças por maior fiscalização e questionamentos à Justiça Eleitoral fizeram parte da estratégia de comunicação do grupo. Mas, encerrado o primeiro turno das eleições de 2026, uma pergunta merece ser feita: o que mudou na confiança dos bolsonaristas no sistema eletrônico de votação?

Até aqui, não se identificou uma contestação formal dos resultados do primeiro turno por parte das principais lideranças citadas. O contraste com os discursos anteriores é evidente, especialmente diante do desempenho eleitoral alcançado pelo PL em diferentes estados.

A questão ganha relevância porque a tecnologia utilizada para registrar os votos de candidatos de esquerda, direita e centro é a mesma. Não existe uma urna eletrônica para eleger representantes do PL e outra para contabilizar os votos destinados ao PT.

Se o sistema merece confiança quando confirma a eleição de candidatos bolsonaristas, quais seriam os critérios objetivos para contestá-lo em outras circunstâncias?

Cabo Gilberto: 267 mil votos e nenhuma contestação às urnas

Na Paraíba, o exemplo mais expressivo vem do deputado federal Cabo Gilberto Silva (PL), líder da oposição na Câmara dos Deputados e um dos principais representantes do bolsonarismo no estado.

Reeleito com 267.142 votos, Cabo Gilberto conquistou a maior votação individual entre os candidatos à Câmara Federal na Paraíba. O resultado foi confirmado pela Justiça Eleitoral e comemorado pelo parlamentar.

O deputado não apenas reconheceu sua vitória como também utilizou o resultado eleitoral para sustentar interpretações políticas sobre a força do bolsonarismo. Em entrevista à Rádio Arapuan, afirmou que as urnas expressaram uma reação de seus eleitores às decisões do Supremo Tribunal Federal.

O contraste merece atenção.

O mesmo sistema eletrônico que foi alvo de questionamentos recorrentes por integrantes de seu campo político registrou a votação que garantiu a Cabo Gilberto uma posição de destaque na política paraibana.

Até o momento, não foi identificada manifestação pública do parlamentar contestando a segurança da apuração que confirmou sua reeleição.

Isso não significa que o deputado tenha obrigação de questionar o resultado. Pelo contrário. Reconhecer uma eleição regularmente apurada é parte do funcionamento democrático. O ponto é outro: a confiança nas instituições eleitorais precisa obedecer a critérios consistentes, independentemente de quem seja beneficiado pelo resultado.

Flávio Bolsonaro e a mudança de discurso

A postura de Flávio Bolsonaro também merece análise.

Em julho deste ano, o então pré-candidato voltou a levantar questionamentos envolvendo as urnas eletrônicas durante um encontro com diplomatas. Após a repercussão, divulgou uma nota afirmando que não havia colocado em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro.

Em agosto, durante entrevista ao programa Canal Livre, declarou que aceitaria o resultado das eleições e afirmou esperar uma atuação imparcial do Tribunal Superior Eleitoral.

A declaração representou um distanciamento importante da postura adotada por seu pai, Jair Bolsonaro, especialmente durante o processo eleitoral de 2022.

Já em setembro, Flávio anunciou a mobilização de apoiadores para fiscalizar a votação, mas direcionou suas preocupações a possíveis irregularidades praticadas por eleitores, evitando naquele momento acusações de fraude no sistema eletrônico.

Portanto, o silêncio posterior ao primeiro turno não surgiu completamente de surpresa. O candidato já vinha sinalizando uma posição diferente, embora tenha reproduzido anteriormente alegações incorretas sobre a tecnologia eleitoral.

O histórico de Jair Bolsonaro e do PL

O ex-presidente Jair Bolsonaro transformou a desconfiança nas urnas em um dos temas centrais de sua atuação política. Em 2022, convocou embaixadores estrangeiros para apresentar acusações sem provas sobre o sistema eleitoral brasileiro.

O episódio levou à sua condenação pelo Tribunal Superior Eleitoral por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, com a declaração de inelegibilidade.

Esse histórico torna ainda mais relevante observar como o PL e suas lideranças se posicionam diante dos resultados de 2026.

A ausência de novas acusações não permite concluir que todos os integrantes do partido tenham abandonado suas críticas anteriores. Tampouco comprova quais seriam suas motivações.

Mas evidencia uma questão que precisa ser enfrentada no debate público: a credibilidade de uma eleição deve depender de provas e procedimentos verificáveis, e não da identidade política dos vencedores.

A confiança nas urnas não pode depender do resultado

A eleição de Cabo Gilberto na Paraíba, o desempenho do PL em diferentes disputas e a continuidade de Flávio Bolsonaro na corrida presidencial demonstram que o sistema eleitoral produziu resultados favoráveis a diferentes forças políticas.

É legítimo fiscalizar eleições, exigir transparência e questionar irregularidades concretas. A fiscalização é, inclusive, uma garantia democrática. O que não se sustenta é transformar suspeitas sem comprovação em acusações de fraude.

Se as lideranças bolsonaristas passaram a reconhecer com maior clareza a legitimidade dos resultados, trata-se de uma mudança relevante e que merece ser explicitada.

A pergunta permanece: o PL, Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Cabo Gilberto reconhecem agora a confiabilidade das urnas eletrônicas ou apenas deixaram de questioná-las neste primeiro turno?

A resposta precisa vir dos próprios personagens. Afinal, a segurança do voto não muda conforme o nome que aparece no boletim de urna.

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