Paraíba, quinta, 25 de junho de 2026

O racha que ameaça o comando do bolsonarismoClauber Beserra

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Conflito entre Michelle e Flávio Bolsonaro expõe disputa por liderança e pode redesenhar alianças da direita, inclusive no Rio Grande do Norte.

O pronunciamento da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro caiu como uma bomba no universo bolsonarista e expôs um racha interno que dificilmente será superado no curto prazo. Ao afirmar publicamente que foi maltratada e humilhada pelo enteado, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, Michelle trouxe para o centro do debate um conflito que, até então, permanecia restrito aos bastidores.

Segundo Michelle, Flávio teria dito para que ela não se metesse nos assuntos do partido, apesar de ela ocupar a presidência nacional do PL Mulher e ser apontada como uma das principais responsáveis pela ampliação da participação feminina na legenda, especialmente nas eleições municipais de 2024. Sua atuação foi decisiva para aproximar um eleitorado que historicamente demonstrava resistência ao bolsonarismo.

Esse trabalho ganhou importância justamente porque Michelle assumiu a missão de suavizar a imagem de Jair Bolsonaro diante das mulheres. Não era uma tarefa simples. Ao longo de sua trajetória política, Bolsonaro acumulou declarações amplamente criticadas como machistas e misóginas. Entre elas, a frase em que afirmou ter tido quatro filhos homens e que, quando “deu uma fraquejada”, nasceu uma menina. Também repercutiram suas declarações de que evitava contratar mulheres porque elas engravidam.

Foi nesse contexto que Michelle se tornou uma ponte entre Bolsonaro e o eleitorado feminino, buscando apresentar uma imagem mais moderada do ex-presidente. Independentemente da avaliação política de cada um, é difícil negar que ela desempenhou um papel relevante na redução da rejeição de parte desse segmento ao bolsonarismo.

O episódio envolvendo Flávio Bolsonaro, porém, coloca esse esforço em xeque. Criado politicamente sob a influência do pai, o senador acabou, na visão de Michelle, reproduzindo uma postura semelhante àquela que ela trabalhou durante anos para amenizar. Se esse episódio representa mais do que um desentendimento familiar, ele pode marcar o início de uma disputa pelo comando político e simbólico do bolsonarismo.

Especialistas e analistas políticos já apontavam que o bolsonarismo atravessaria um processo de reorganização diante da impossibilidade de Jair Bolsonaro disputar a Presidência. As pré-candidaturas de nomes como Romeu Zema e Ronaldo Caiado demonstram que a direita conservadora brasileira deixou de gravitar em torno de um único líder. Agora, porém, a divisão parece atingir o próprio núcleo do movimento.

A questão que emerge é outra: quem possui legitimidade para falar em nome do bolsonarismo? Michelle Bolsonaro, que se consolidou como principal interlocutora junto ao eleitorado feminino e representa um discurso mais fiel às bases do movimento? Ou Flávio Bolsonaro, que aposta em uma estratégia mais pragmática, defendendo alianças capazes de ampliar o alcance eleitoral do grupo, mesmo que isso signifique dialogar com setores que antes eram vistos com desconfiança?

Essa disputa também coloca pressão sobre os aliados políticos espalhados pelo país. Afinal, quem acompanhará quem?